Memórias da Floresta
Na terra onde eu nasci há um só poeta.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
A um Negrilho, Miguel Torga, Diário VII, Coimbra, 1956.
As florestas portuguesas são muito mais do que árvores. São parte da nossa identidade, do modo como crescemos e nos reconhecemos enquanto povo. Durante séculos, deram-nos sustento, abrigo, energia, histórias e canções. Foram lugar de trabalho e de festa, de mitos e de memórias passadas de geração em geração.
São também testemunho vivo da nossa história comum: do regime florestal de 1901 às grandes campanhas de arborização do século XX, dos montados de sobro aos pinhais que alimentaram indústrias, culturas e modos de vida.
Mas hoje, estas mesmas florestas estão a mudar perante os nossos olhos.
Entre 1995 e 2023, desapareceram mais de 11% das áreas florestais.
Em 35 anos, uma área equivalente a metade do território nacional ardeu em incêndios.
Com cada hectare perdido, perdem-se também espécies, paisagens, memórias e fragmentos de futuro.
As imagens recentes dos grandes fogos são cicatrizes abertas: lembram-nos da fragilidade dos ecossistemas, mas também da urgência de cuidarmos melhor daquilo que é nosso.
Memórias da Floresta é um espaço de homenagem e partilha.
Um tributo às comunidades que viveram e vivem junto à floresta, aos que sofrem com a devastação dos incêndios, e também a todos os bombeiros e profissionais que, com coragem, enfrentam o fogo para proteger vidas, casas, paisagens e património.
E é, sobretudo, um convite:
Traga as suas histórias, fotografias, recordações.
Partilhe connosco as suas memórias de infância, os cheiros, os sons, os caminhos da floresta.
Porque só juntos poderemos preservar e valorizar este património vivo que é de todos nós.
Partilhe esta página. Partilhe a sua memória. Vamos fazer da floresta uma herança comum, para que não se perca no silêncio do tempo.
Fetos arbóreos no Vale dos Fetos
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/04/20
Local: Bussaco
Vista a partir das Portas de Coimbra
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/04/20
Local: Bussaco
Paisagem da Serra da Lousã intensamente arborizada
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2021/10/11
Local: Serra da Lousã
Pequena mata que rodeia o Castelo de Monte Real
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/03/02
Local: Castelo de Monte Real
Vista do Castelo da Lousã a partir do Santuário de Nossa Senhora da Piedade
Autor: Maria Helena Moreira
Data:2023/07/09
Local: Serra da Lousã
Aldeia de xisto numa encosta povoada principalmente por pinheiro-bravo (Pinus pinaster)
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2021/10/12
Local: Candal. Serra da Lousã
Uma aldeia de xisto com vista ao fundo de uma paisagem montanhosa com vasta área de floresta
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2021/10/11
Local: Aigra Velha, Serra da Lousã
Termas de Monte Real
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/03/01
Local: Termas de Monte Real
Uma aldeia de xisto rodeada de folhosas na Serra da Lousã
KeyWords: Montanha. Aldeia. Xisto. Mata de folhosas.
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2021/10/12
Local: Cerdeira
Bosque de Carvalho-alvarinho
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2024/05/11
Local: Coelheira. Serra da Freita
Cupressus lusitanica. Cedro-do-buçaco
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/04/20
Local: Bussaco
Vale encaixado na Serra de São Macário
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2024/05/11
Local: Covas do Monte, São Pedro do Sul
Uma arriba no Douro Internacional
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2024/06/09
Local: Barragem do Picote
Paisagem florestal com densa vegetação
Autor: Maria Helena Moreira
Data: 2025/04/20
Local: Bussaco
Praia Fluvial da Senhora da Piedade, situada na ribeira de São João
Autor: Maria Helena Moreira
Data:2023/07/09
Local: Serra da Lousã
Vista para a Torre da Teixeira (cima)
Autor: Aldina Piedade
Data: 2025/07/13
Local: Teixeira de Cima – Seia
Ponte medieval de Verde
Autor: Aldina Piedade
Data: 2025/07/03
Local: Alvoco da Vázea – Oliveira do Hospital
Memórias da Floresta
As florestas portuguesas são parte essencial da nossa identidade coletiva. Durante séculos moldaram a vida das comunidades que delas dependiam para sustento, abrigo, energia e cultura. São espaço de trabalho e de lazer, de mitos e de práticas quotidianas, de tradições transmitidas de geração em geração. Constituem, também, testemunho vivo da história do país: do regime florestal instituído em 1901 à grande campanha de arborização do século XX, da expansão dos montados de sobro e pinhais ao crescimento das indústrias ligadas à madeira, cortiça e celulose. Hoje, porém, estas mesmas florestas enfrentam profundas transformações e ameaças.
Nos últimos 35 anos, uma área equivalente a metade do território nacional ardeu em incêndios sucessivos, deixando marcas dolorosas no território e nas pessoas.
A floresta portuguesa, que ocupa cerca de três milhões de hectares, é um dos maiores ativos ecológicos, económicos e culturais do país. No entanto, vive uma crise estrutural que se manifesta de forma repetida através dos incêndios, do abandono rural e da crescente vulnerabilidade às alterações climáticas.
Primeira Carta Agrícola e Florestal de Portugal (CAFP, 1910)
Os números confirmam esta realidade: nas últimas décadas arderam em média 100 mil hectares por ano, com picos dramáticos como o de 2017, quando meio milhão de hectares desapareceram em chamas, ou 2024, em que o fogo consumiu cerca de 139 mil hectares — quase quatro vezes mais do que no ano anterior.
A tendência climática agrava a situação: ondas de calor prolongadas e secas intensas transformam o território em material inflamável. O que antes era exceção tornou-se rotina, e o que hoje ainda nos parece extremo será amanhã o novo normal.
Mas a floresta não pode ser reduzida a combustível.
É um ecossistema complexo e generoso que presta serviços fundamentais: alberga biodiversidade, protege o solo, regula o clima, funciona como sumidouro de carbono e compõe a paisagem que estrutura identidades locais. Contudo, a relação vital entre comunidades e floresta foi-se perdendo ao longo do tempo. O abandono agrícola e pastoril, a fragmentação fundiária e a ausência de gestão ativa abriram caminho à homogeneização do território, hoje marcado por extensos eucaliptais, acaciais e matos. Numa paisagem simplificada, a diversidade que conferia resiliência deu lugar à monotonia que alimenta a vulnerabilidade.
O fogo, em si mesmo, não é um intruso.
Nos ecossistemas mediterrânicos, a sua presença sempre fez parte da dinâmica natural, e algumas espécies desenvolveram mecanismos de adaptação a regimes de fogo dentro de determinados intervalos de frequência e intensidade. O problema surge quando as atividades humanas alteram profundamente esses regimes históricos. O aumento das ignições, em grande parte devido à expansão desordenada da interface urbano-florestal, somou-se à continuidade e conectividade da vegetação resultantes do abandono dos usos tradicionais e da má gestão de plantações. A política de extinção sistemática reforçou o ciclo: menos fogos, mas cada vez mais intensos, porque se acumula combustível ano após ano.
Excluir o fogo da paisagem é uma ilusão perigosa e ecologicamente insustentável.
Nenhum investimento em meios de combate pode garantir uma floresta “ignífuga” quando coincidem seca prolongada, vento forte e múltiplas ignições. A ciência é clara: apagar incêndios sem repensar os ciclos do fogo gera apenas um défice acumulado, um barril de pólvora prestes a explodir. A resposta exige aceitar o risco, aprender a conviver com ele e gerir ativamente a paisagem para reduzir a sua vulnerabilidade.
Isso implica uma mudança de paradigma. É necessário reabilitar a floresta como ecossistema e não apenas como mancha homogénea de árvores de crescimento rápido. Recriar mosaicos rurais, reintroduzir práticas agrícolas e pastorícia extensiva, restaurar solos e diversificar espécies são passos centrais. Ao mesmo tempo, importa investir na vitalidade social e económica do interior, proporcionando apoio técnico e financeiro à gestão e criando incentivos para que as comunidades locais sejam protagonistas desta transformação. Sem essa articulação entre território, população e políticas públicas, o espaço florestal continuará a regenerar-se de forma mais pobre, perdendo funções produtivas e, ainda mais gravemente, funções ecológicas.
O desafio português não é apenas apagar incêndios: é reconstruir a relação entre floresta, sociedade e território.
O futuro exige visão integrada, capaz de articular prevenção, ordenamento, valorização do ecossistema e inovação social. A floresta tem de deixar de ser vista como ameaça permanente para ser reconhecida como o bem comum que é: fonte de vida, equilíbrio e resiliência para as próximas gerações.
É neste contexto que surge Memórias da Floresta. Esta página é um espaço de memória e partilha, que cruza dados históricos e atuais com testemunhos pessoais, imagens e narrativas das comunidades. É um lugar de recolha e transmissão, que constitui também uma homenagem: homenagem às comunidades que vivem e trabalham junto à floresta; homenagem às memórias que guardam dos seus usos, saberes e significados; e homenagem a todos os que hoje sofrem com a devastação dos fogos. É igualmente um tributo aos bombeiros e profissionais que, com coragem e dedicação, enfrentam ano após ano o drama dos incêndios para proteger vidas, casas, paisagens e património.
Guia de informação
COS – Cartas de Ocupação do Solo 1995 (Esq) e 2023 (Dir)

Tabela I. Ocupação do Solo 1995
| Ocupação do solo | 1995 (ha) | 1995 (%) | 2023 (ha) | 2023 (%) | Alteração (ha) | Alteração (%) |
| Territórios artificializados | 339 089,29 | 3,80% | 506 877,89 | 5,68% | 167 788,59 | 49,48% |
| Agricultura | 2 528 926,31 | 28,33% | 2 262 835,48 | 25,35% | (266 090,83) | -10,52% |
| Pastagens | 642 671,92 | 7,20% | 979 011,18 | 10,97% | 336 339,26 | 52,33% |
| Superfícies agroflorestais | 772 594,08 | 8,65% | 682 550,69 | 7,65% | (90 043,39) | -11,65% |
| Florestas | 3 198 356,27 | 35,83% | 2 834 631,44 | 31,75% | (363 724,83) | -11,37% |
| Matos | 1 085 575,45 | 12,16% | 1 402 881,03 | 15,72% | 317 305,57 | 29,23% |
| Espaços descobertos com pouca vegetação | 198 035,30 | 2,22% | 59 348,87 | 0,66% | (138 686,43) | -70,03% |
| Zonas húmidas | 32 168,47 | 0,36% | 26 779,85 | 0,30% | (5 388,62) | -16,75% |
| Massas de água superficiais | 129 206,01 | 1,45% | 171 706,67 | 1,92% | 42 500,66 | 32,89% |
Em 1995, as florestas cobriam 35,6% do território nacional (quase 45%, se consideradas as Superfícies agroflorestais). Em 2023 representam 31,8%, o que configura uma perda de 11,4%.
Tabela II. Alterações à ocupação florestal entre 1995 e 2023
| Ganho | Manutenção | Perda | |
| Superfícies agroflorestais | 33,3 | 21,7 | 45,0 |
| Florestas | 14,9 | 58,8 | 26,3 |
Tabela III. Peso relativo dos tipos de floresta nos anos 1995 e 2023 e alteração.
| Florestas | Area 1995 (ha) | Peso relativo (%) | Area 2023 (ha) | Peso relativo (%) | Alteração (ha) | Alteração (%) |
| Florestas de eucalipto | 656 379,32 | 16,65% | 965 139,79 | 27,44% | 308 760,47 | 47% |
| Florestas de folhosas | 1 136 327,44 | 28,82% | 828 443,46 | 23,55% | (307 883,98) | -27% |
| Florestas de espécies invasoras | 0,00% | 24 914,38 | 0,71% | 24 914,38 | ||
| Florestas de resinosas | 1 377 015,39 | 34,93% | 1 016 303,60 | 28,89% | (360 711,79) | -26% |
| SAF de folhosas | 766 361,89 | 19,44% | 639 189,97 | 18,17% | (127 171,92) | -17% |
| SAF de resinosas | 6 272,04 | 0,16% | 43 395,16 | 1,23% | 37 123,11 | 592% |
| Total Geral | 3 942 356,08 | 100% | 3 517 386,35 | 100% | (424 969,73) | 5,69 |
As florestas de eucalipto quase que duplicaram a área, enquanto as florestas de folhosas e de resinosas perdem quase 1/3.
Tabela IV. Número de incêndios, área ardida e média da área ardida
| Ano | N.º | Área ardida (ha) | Média de área ardida (ha) |
| 1990 | 1416 | 105 885,17 | 74,78 |
| 1991 | 880 | 182 207,42 | 207,05 |
| 1992 | 230 | 34 229,11 | 148,82 |
| 1993 | 141 | 40 237,83 | 285,37 |
| 1994 | 623 | 72 012,61 | 115,59 |
| 1995 | 1749 | 134 458,12 | 76,88 |
| 1996 | 1477 | 92 935,98 | 62,92 |
| 1997 | 755 | 21 263,17 | 28,16 |
| 1998 | 1831 | 216 160,85 | 118,06 |
| 1999 | 1462 | 67 179,01 | 45,95 |
| 2000 | 1731 | 143 277,75 | 82,77 |
| 2001 | 1861 | 97 600,78 | 52,45 |
| 2002 | 1851 | 133 197,16 | 71,96 |
| 2003 | 1186 | 439 908,84 | 370,92 |
| 2004 | 722 | 114 970,08 | 159,24 |
| 2005 | 1459 | 346 362,72 | 237,40 |
| 2006 | 715 | 72 640,53 | 101,60 |
| 2007 | 737 | 38 321,36 | 52,00 |
| 2008 | 719 | 11 961,34 | 16,64 |
| 2009 | 1441 | 93 044,88 | 64,57 |
| 2010 | 2539 | 131 268,34 | 51,70 |
| 2011 | 3723 | 80 229,32 | 21,55 |
| 2012 | 2979 | 113 575,96 | 38,13 |
| 2013 | 3400 | 149 433,96 | 43,95 |
| 2014 | 1141 | 18 326,74 | 16,06 |
| 2015 | 1653 | 56 401,77 | 34,12 |
| 2016 | 2845 | 158 292,97 | 55,64 |
| 2017 | 2799 | 520 093,54 | 185,81 |
| 2018 | 550 | 40 279,54 | 73,24 |
| 2019 | 1729 | 40 189,60 | 23,24 |
| 2020 | 1798 | 66 206,31 | 36,82 |
| 2021 | 920 | 27 374,63 | 29,76 |
| 2022 | 1792 | 115 377,45 | 64,38 |
| 2023 | 1736 | 34 145,71 | 19,67 |
| 2024 | 1558 | 139 396,85 | 89,47 |
| 2025 | 144 | 274 653,00 | 1907,31 |
Gráfico 1 – Alteração da tipologia de florestas – grandes grupos (%)
As florestas de eucalipto quase que duplicaram a área, enquanto as florestas de folhosas e de resinosas perdem quase 1/3.
Gráfico 2 – Alteração da tipologia de florestas e de SAF (%)
As florestas de eucalipto quase que duplicaram a área, enquanto as florestas de folhosas e de resinosas perdem quase 1/3.
Figura I – Distribuição das florestas por tipologia (esq 1995; dir 2023)

As florestas de eucalipto quase que duplicaram a área, enquanto as florestas de folhosas e de resinosas perdem quase 1/3.
Figura II – Alteração da ocupação dos tipos de floresta (Florestas – direita; SAF – esquerda)

As florestas de eucalipto quase que duplicaram a área, enquanto as florestas de folhosas e de resinosas perdem quase 1/3.
Figura III – Ganhos totais – Floresta

Figura IV – Alterações: Floresta de eucalipto (eucalipto)

Figura V – Alterações: Floresta de folhosas (folhosas)

Figura VI – Alterações: Floresta de resinosas (resinosas)

Figura VII – Alterações: SAF de folhosas (SAF_folhosas)

Figura VIII – SAF de resinosas (SAF_resinosas)

Figura IX – Áreas ardidas entre 1990 e 2025*

* Dados provisórios
Fontes de Dados
Direção Geral do Território – Carta de Ocupação do Solo 1995; Carta de Ocupação do Solo 2023
Instituto da Conservação da Natureza – Áreas ardidas
EFFIS – European Forest Fire Information System (estimativa da área ardida em Portugal 2025) [+]
Fontes, organização de informação e mapas por Maria João Martins





















